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Obesidade, além do peso

Sep 18
4 min read

Tratar a obesidade é muito mais do que emagrecer


Quando alguém pensa em obesidade, pensa quase automaticamente no peso, nos

quilos que quer perder. No número que aparece na balança. No tamanho da roupa.

Na imagem que vê ao espelho.


Mas, enquanto médica, quando avalio uma pessoa com obesidade, o peso é

apenas uma parte daquilo que quero perceber.


Passo a explicar: duas mulheres com exatamente o mesmo peso — e até com o

mesmo Índice de Massa Corporal (IMC) — podem ter estados de saúde muito

diferentes. Uma pode ter tensão arterial elevada, colesterol elevado, resistência à

insulina, fígado gordo, dores articulares ou dificuldade em realizar algumas

atividades do dia a dia. A outra pode ainda não apresentar nenhuma destas

complicações.


É por isso que falar de obesidade implica olhar além do peso.


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A obesidade é uma doença crónica

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Este é, provavelmente, o primeiro conceito que é preciso começar a interiorizar.


A obesidade não deve ser encarada simplesmente como uma questão estética,

nem como consequência de “comer demasiado” ou de falta de força de vontade. É

uma doença crónica, complexa e multifatorial.


O seu desenvolvimento resulta da interação de múltiplos fatores: genéticos,

mecanismos hormonais e neurobiológicos, alimentação, atividade física, sono,

stress, medicamentos, ambiente e diferentes fases da vida. Nas mulheres, existem

ainda períodos particularmente importantes — como a gravidez, o pós-parto, a

perimenopausa e a menopausa — em que alterações hormonais, da composição

corporal, do sono e do estilo de vida podem tornar a gestão do peso mais

desafiante.


Por isso, reduzir a obesidade a “coma menos e mexa-se mais” é simplificar

demasiado um problema muito mais complexo.


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O IMC é importante, mas não conta toda a história

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O IMC é calculado através da relação entre o peso e a altura2 e continua a ser uma

ferramenta útil para identificar pessoas que poderão apresentar excesso de peso

ou obesidade, mas tem limitações.


O IMC não nos diz, por exemplo:

  • quanta gordura corporal existe;

  • onde essa gordura está localizada;

  • quanta massa muscular existe;

  • se já existem alterações metabólicas;

  • se o excesso de adiposidade está a comprometer algum órgão;

  • ou qual é o impacto na qualidade de vida e na capacidade funcional daquela

  • pessoa.


Nos últimos anos, várias organizações científicas têm defendido precisamente

uma avaliação mais completa da obesidade, que não fique limitada ao IMC. A

distribuição da gordura corporal é um dos aspetos importantes. A acumulação de

gordura na região abdominal e visceral (em redor dor órgãos) está particularmente

associada a alterações metabólicas e cardiovasculares.


É por isso que, numa avaliação clínica, medidas como o perímetro abdominal ou a

relação entre o perímetro da cintura e a altura podem acrescentar informação

relevante.


Mas mesmo estas medidas são apenas parte da avaliação.


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Eu não trato um IMC. Trato uma pessoa.

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Então, o que avalio numa pessoa com obesidade?


Quando uma mulher me procura porque quer perder peso, a pergunta mais

importante não é: “Quantos quilos quer perder?”


Mas, sim: “Que impacto está este peso a ter na sua saúde?”


Isso implica perceber, entre outros aspetos, como estão a tensão arterial, a

glicemia, o colesterol e os triglicerídeos, a função hepática e o risco cardiovascular.


Implica procurar doenças frequentemente associadas à obesidade, como diabetes

mellitus tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia, doença hepática metabólica ou

apneia obstrutiva do sono.


Mas há outras perguntas igualmente importantes:

  • Tem dores nos joelhos que a impedem de caminhar?

  • Fica cansada quando sobe escadas?

  • Tem dificuldade em acompanhar os filhos ou os netos?

  • Perdeu força?

  • Dorme mal e acorda constantemente cansada?

  • O peso está a limitar aquilo que consegue fazer no seu dia a dia?


Tudo isto também é saúde. Os sinais da obesidade nem sempre aparecem só na

balança.


É possível que uma pessoa procure ajuda porque quer perder 10 ou 20 quilos. Mas,

durante a avaliação, posso descobrir que existem outros problemas que merecem

tanta ou mais atenção do que esse número.


✓ Uma tensão arterial que começou a subir.

✓ Uma glicemia que já está acima do desejável.

✓ Triglicerídeos elevados.

✓ Acumulação de gordura no fígado.

✓ Ressonar intenso e sonolência durante o dia.

✓ Dor nos joelhos que começou a limitar a caminhada.

✓ Ou simplesmente a sensação de que atividades que antes eram fáceis exigem presentemente muito mais esforço.


São estes sinais que nos ajudam a perceber o verdadeiro impacto da obesidade

naquela pessoa. E são também eles que nos ajudam a definir os objetivos do

tratamento.


O objetivo do tratamento não deve ser apenas perder peso. Perder peso pode ser

importante e, em muitas situações, é uma parte essencial do tratamento.


Mas existe uma diferença importante entre perder peso e tratar a obesidade. O

objetivo deve ser utilizar a redução do peso e da adiposidade como uma ferramenta

para alcançar algo maior: ganhos em saúde.


Isso pode significar, melhorar a tensão arterial, melhorar o controlo da glicemia,

reduzir o risco de desenvolver diabetes mellitus tipo 2, melhorar o perfil lipídico,

diminuir a gordura acumulada no fígado, reduzir dores articulares, dormir melhor,

preservar massa muscular e força, conseguir caminhar, subir escadas ou brincar

com os filhos sem ficar tão cansada. E, sobretudo, reduzir o risco de doença futura.


Por isso, quando avalio se um tratamento está a resultar, a balança é apenas uma

das métricas.


Os quilos perdidos importam. Mas os ganhos em saúde importam ainda mais.


É ISTO QUE, PARA MIM, SIGNIFICA “TRATAR A OBESIDADE, ALÉM DO PESO”


Se sente que o seu peso já está a afetar a sua saúde, ou se tem tentado perder peso

sem conseguir manter os resultados, uma avaliação médica pode ajudar a

perceber quais os fatores envolvidos e qual a estratégia mais adequada ao seu

caso.




Referências científicas

  1. Rubino F, Cummings DE, Eckel RH, et al. Definition and diagnostic criteria of

clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology. 2025;13(3):221–262.

  1. Busetto L, Dicker D, Frühbeck G, et al. A new framework for the diagnosis,

staging and management of obesity in adults. Nature Medicine. 2024.

  1. Tandar CE, Lin JC, Stanford FC. Diagnosis, staging and management of

obesity: a synthesis of contemporary guidelines. Nature Reviews

Endocrinology. 2026.

  1. World Health Organization. Obesity and overweight. WHO; updated 2025.

  2. European Association for the Study of Obesity (EASO). Framework for the

pharmacological treatment of obesity and its complications; updated 2026

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